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FUTEBOL: ARTE E CIÊNCIA – ÊNIO ANDRADE

FUTEBOL: ARTE E CIÊNCIA

ÊNIO ANDRADE

Raciocínio rápido, cordialidade e uma capacidade rara de montar grandes times. Três vezes campeão brasileiro, uma delas invicto, tinha o futebol na alma.

Pergunte a um jogador de futebol que tenha atuado nos anos 1970 e 1980, em especial no sul do Brasil, quem foi o melhor treinador com quem ele trabalhou. A probabilidade de que a resposta seja Ênio Andrade é muito alta. Esse gaúcho de jeito simples e direto colecionou títulos e é tido por grandes conhecedores de futebol como um dos maiores montadores de equipes do país. Entre algumas de suas conquistas estão o título brasileiro de 1979 com o Internacional de Porto Alegre, até hoje a única oportunidade em que um time foi campeão invicto. Além de outro feito capaz de apresentar toda sua capacidade: o Campeonato Brasileiro conquistado com o Curitiba, em 1985. “Eu estava no Maracanã torcendo pelo Bangu como parioca” e o Bangu podia jogar muitas horas e não tinha como ganhar aquele jogo. “O Bangu ficou como vice-campeão brasileiro e lambi os queixos como diz os cariocas”.

CAMISA 10 CLÁSSICO

Ênio Vargas de Andrade nasceu em Porto Alegre, em 31 de janeiro de 1928. Com 17 anos já era jogador do São José, o Zequinha, tradicional time da capital gaúcha. Também atuou no Internacional, sendo campeão gaúcho no início dos anos 1950. Depois se transferiu para o time do Renner, que era mantido pela fábrica de tinta de mesmo nome.

Sempre que o time chamava a gente deixava o trabalho na fábrica de lado e ia jogar. O Ênio era um meia-esquerda.

Técnico e habilidoso, “camisa 10” clássico, canhoto. A principal característica dele era bater muito bem na bola, principalmente em cobranças de pênalti – conta o ex-goleiro Valdir Joaquim de Morais, parceiro de time e compadre de Ênio Andrade. Eu nunca vi o cabeça perder um pênalti – acrescenta.

Cabeça era o apelido com que os colegas brindaram Ênio Andrade no futebol, numa referência óbvia ao volume avantajado que crescia sobre o pescoço. Mas ele era bom mesmo com a bola no pé esquerdo. Ajudou o modesto Renner a fazer história conquistando o título gaúcho de 1954, desbancando os poderosos Inter e Grêmio. Feito que demorou 44 anos para ser repetido, quando em 1998 o Juventude derrotou o Inter na decisão. Também participou da campanha épica da seleção brasileira – representada pelo gaúcho – na conquista do título Pan-Americano de 1956, no México.

Em 1958 foi contratado pelo Palmeiras e conquistou o título do Supercampeonato Paulista de 1959. Mas a partir do deslocamento de Chinesinho para a meia-esquerda, Ênio perdeu espaço no time titular. Também passou pelo Náutico de Pernambuco, antes de encerrar a carreira no São José de origem, em 1962.

O MAGO DO VESTIÁRIO

A carreira de Treinador começou em pequenos clubes do Rio Grande do Sul e só foi ganhar destaque no começo da década de 1970, quando comandou o Esportivo de Bento Gonçalves numa boa campanha, revelando jogadores como Neca, que faria sucesso no Grêmio e no São Paulo. Teve chances no Grêmio e no Curitiba e, embora já demonstrasse todo seu conhecimento, os times fracos não ajudaram. Mas as principais características do treinador tinhoso, observador e de raciocínio lógico e objetivo já estavam todos ali. Fumante compulsivo, o Cabeça dava suas palestras nos vestiários com um cigarro no canto da boca. Fala mansa, ouvia a todos e assimilava críticas como um estoico. Durante o jogo, bola rolando, falava pouco.

A magia acontecia no vestiário. Ele tinha uma capacidade incrível de mudar o time no vestiário, de mexer com o jogo. E isso ainda na época em que não se permitia fazer substituições – atesta o companheiro Valdir de Morais.

O Internacional foi o grande time brasileiro dos anos 1970. Até meados da década rivalizava com o Palmeiras, cada um conquistando dois títulos nacionais. Em 1979 o Internacional pôs fim a essa disputa de maneira categórica. Embora tenha deixado pelo caminho rivais de peso como o arqui-inimigo Grêmio, o Cruzeiro e o Vasco (na final), foi exatamente contra o Palmeiras, na semifinal, que se deu o embate que simbolizou a conquista da hegemonia na década.

O Verdão era dirigido por mestre Tele Santana, e vinha de resultados expressivos como uma goleada por 4 a 1 sobre o Flamengo, no Maracanã. As semifinais foram espetaculares. Empate por 1 a 1 no Beira Rio e um eletrizante 3 a 2 para o Inter, no Morumbi, com uma atuação soberba de Falcão.

Ênio Andrade tinha um timaço nas mãos e havia implantado o sistema de jogo que seria sua marca registrada, o 4-3-3. Havia força na marcação, muita capacidade física, proporcionada pelo trabalho do preparador Gilberto Tim, um dos melhores do país. Craques como o zagueiro Mauro Galvão, Falcão e Mario Sergio. O Inter disputou 23 partidas, conseguindo 16 vitórias e empatando 7 vezes. Era o primeiro time a ser tricampeão brasileiro em 1975, 1976 e 1979 e permanece até hoje como o único a conquistar o título nacional de forma invicta. O Cabeça estava apenas começando a expandir seu domínio sobre o futebol brasileiro.

CAMPEÃO ACIMA DAS RIVALIDADES

O Inter tricampeão brasileiro ainda foi vice-campeão da Libertadores em 1980 e semifinalista do Brasileiro no mesmo ano. A final da Libertadores foi particularmente traumática para os colorados. O ídolo Falcão tinha acabado de ser vendido para o Roma da Itália e foi vaiado no Beira-Rio durante a partida final, na qual o Inter perdeu o título para o Nacional uruguaio. As boas campanhas não seduziram os dirigentes do Inter. Mas chamaram a atenção dos rivais gremistas, que agiram rápido e o contrataram. Ênio foi campeão brasileiro novamente, dessa vez comandando o maior rival do Inter. Um time que mantinha o padrão tático que ele considerava ideal. Uma linha de quatro defensores, mais três no meio de campo e três atacantes. Naquele caso do Grêmio, o trio de frente era formado por Tarcisio, Baltazar e Odair. Havia ainda grandes craques.

A segurança de Emerson Leão no gol e o talento de Paulo Isidoro e Wilson Tadei no meio campo. Na liderança, a raça uruguaia de Hugo De Léon. A campanha, como em quase todas as conquistas com a marca de Ênio Andrade foi excelente: 23 jogos, 14 vitórias, 2 empates e 7 derrotas. O goleador do time na competição foi Baltazar. Dos dez gols marcados pelo atacante, um jamais sairá da memória dos gremistas. Em 3 de maio de 1981, o Grêmio enfrentou o São Paulo e um Morumbi lotado na decisão. Vinha de uma boa vitória por 2 a 1 em Porto Alegre. Aos 20 minutos do segundo tempo, Baltazar mata no peito, na entrada da área e acerta no ângulo de Waldir Perez.

O gol do título também inaugurava a era de grandes conquistas do tricolor gaúcho. Ênio Andrade não era o treinador gremista quando o time venceu a Libertadores e o Mundial de 1983 – o cargo estava com Valdir Espinosa. Mas não há gremista que deixe de reconhecer a mão de cabeça na confirmação do Grêmio como força nacional e internacional do futebol. No meio do caminho, ele quase faturou o bi brasileiro com o Grêmio alcançando a decisão em 1982. Mas do outro lado estava um time sensacional do Flamengo, com Zico no auge da forma, embalado pela conquista da Libertadores e do Mundial em 1981. Ainda assim a decisão foi para o terceiro jogo, após empates por 1 a 1 (Maracanã) e 0 a 0 (Olímpico). Na partida final, em Porto Alegre, um gol de Nunes deu o título ao Flamengo.

(continua)

Eduardo Pimentel

Técnico de Futebol

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