Ansiedade, dor nas costas, dor no pescoço, dor de cabeça. Fadiga visual, insônia, alcoolismo, depressão. Dor nos braços, dor nas pernas, dor nas articulações, crises de choro, cansaço em geral, obesidade. Está para nascer (ou não) o jornalista que nunca teve nenhum desses problemas.

Falta de atividades físicas, alimentação ruim, estresse, assédio moral ou sexual, precarização do trabalho, demissão ou mais de um emprego para pagar as contas, tripla jornada, “frilas”, atuação em multiplataformas, muita pressão e pouco cuidado com a saúde estão deixando a categoria doente.

Apesar de lidarmos com informação o dia inteiro, quase sempre não damos a devida atenção aos alertas dos especialistas e deixamos de lado o nosso bem-estar físico e mental. Mais: com a crise no setor, redução de postos de trabalho e também de salários, muitos não conseguem pagar um plano de saúde. E o tão necessário check-up é adiado. Há outro agravante: alguns conseguem uma brecha no dia a dia corrido, fazem exames, mas nunca retornam ao médico para mostrá-los, porque a saúde sempre fica para depois.

Sim, estamos adoecendo. Há colegas tendo crises de ansiedade. Vários tomam remédios controlados. Outros são pegos pela depressão. Gastrite, úlcera, síndrome do intestino irritável. Enxaquecas constantes. Crises de pânico. Diabetes. Câncer.

As mazelas são muitas e a tendência é piorar: comemos mal, trabalhamos de mais, somos adeptos da automedicação e muitos de nós não conseguem sequer fazer aquela tal caminhada diária de 30 minutos.

Tema de conversa entre colegas, a saúde dos jornalistas também tem chamado a atenção da academia. O impacto das condições de trabalho e da precarização da profissão na vida do jornalista, com reflexos na qualidade de vida e na saúde, por exemplo, foi tema do doutorado da pesquisadora Juliana Bulhões Alberto Dantas.

Defendida este ano na Universidade de Brasília-UNB, a tese teve como recorte da pesquisa empírica os profissionais que atuam nas cidades de Brasília-DF e Natal-RN e mostrou que alguns dos dados mais surpreendentes são os que se referem à saúde.

O trabalho revela que a maioria expressiva dos entrevistados tem condições e doenças que, pela literatura, são relacionadas ao exercício profissional. Quase 98% dos entrevistados marcaram (no questionário aplicado) uma doença ou condição, incluindo palpitações, insônia, dores nas costas, Síndrome de Burnout, depressão, gastrite e ansiedade.

Mais de 70% dos jornalistas consideram que essa doença/condição está relacionada ao seu ofício. A pesquisa também evidencia que “metade da amostra acredita que em seus vínculos não há preocupação, por parte do empregador, com a saúde dos trabalhadores”.

Juliana Bulhões também faz um importante questionamento: por que os jornalistas se submetem a condições de trabalho tão precarizadas? E aponta: “Acreditamos que, em parte, é devido à paixão pela profissão, pois o prazer em praticar o Jornalismo compensa mais do que os desgastes provocados pelo exercício profissional nessas condições. Também, por questões de sobrevivência, pois a maioria não se vê realizando outro trabalho ou acha que não tem habilidades para tanto”.

E eu faço uma provocação para todos nós: será que comprometer a saúde e a qualidade de vida vale a pena? Que tal marcar agora o tão adiado check-up?

(Artigo publicado originalmente no jornal A União, edição de 1º de dezembro de 2019)

Para quem tem interesse em ler, na íntegra, a tese citada no meu texto, segue o link: https://repositorio.unb.br/handle/10482/35573