Um ano sem Pelé: Edinho revela ameaças da ditadura contra o Rei antes da Copa de 70
O filho de Pelé, Edinho, revelou que o pai sofreu ameaças da ditadura para participar da Copa do Mundo de 1970, após ficar desiludido com as duas últimas que havia disputado e considerar ficar fora daquele Mundial.
– Minha mãe conta que houve uma dúvida se ele ia participar ou não da Copa de 70. Ele estava um pouco desiludido diante da última Copa em que se lesionou (1962) e da outra que não foi um sucesso (1966). Enfim, ele ponderou não participar – afirmou Edinho em entrevista ao “Estadão”.
– E em determinado momento, minha mãe falou que ele estava viajando e chegaram em casa dois homens de preto, entraram e falaram: “Olha, é o seguinte: melhor teu marido considerar, é bom ele jogar essa Copa, vai ser bom para vocês, vai ser bom para ele…” Isso mais de uma vez… e cartas anônimas. Embora o mundo já o reverenciasse como rei, no país dele era mais um preto que estava a comando do interesse do Estado ali do momento, que tinha ele como o grande garoto-propaganda – acrescentou.
O Brasil foi campeão da Copa de 70 com Pelé sendo um dos grandes protagonistas do torneio.
Diante da repressão que vivia durante a ditadura, Pelé não era um grande militante da causa racista. Segundo Edinho, isso acontecia devido aos perigos que se corriam na época no Brasil ao levantar bandeiras.
Por conta disso, não é possível comparar Muhammad Ali e Nelson Mandela com Pelé, segundo seu filho. Em alguns momentos, o Rei foi criticado por não ser igual às duas figuras na luta contra o racismo.
– A comparação com o Muhammad Ali é frágil, como seria também com o Nelson Mandela, porque o Pelé teve a sua história, a sua trajetória, a sua experiência, e esses outros seres humanos também tiveram as suas em lugares do mundo completamente distintos, um na África, um na América e meu pai aqui no Brasil. Então ele nunca teve esse lado militante, como minha irmã hoje. Ela vive numa era diferente, que tem caminhos mais claros e mais seguros para se expressar. O Pelé viveu numa época de ditadura. Ele teve de ter coragem para ser o que foi, com dignidade, hombridade e serenidade. As pessoas desapareciam nessa época, sumiam da face da Terra. Quem levantava a mão eventualmente acabava ficando sem a mão, e ele, mesmo assim, sempre com a cabeça erguida – comentou Edinho.
– Sempre representando o negro, sendo um representante do negro que o mundo inteiro tinha como referência, como inspiração. O mundo inteiro podia olhar e falar: “Tem um rei preto lá no Brasil! Então, se tem um rei preto lá, eu posso ser um rei preto”. Todos os negros se sentiam representados por ele. Para mim, historicamente, isso vai ser um legado muito mais importante em se falando da luta do negro na humanidade do que ele possa ser cobrado no sentido prático, momentâneo. A sua história de vida foi a grande contribuição que ele fez pra humanidade, para o negro da Terra. Não é fácil saber se conduzir, saber entrar e sair, saber ser idolatrado e representar o país que muitas vezes não o tratou com respeito – completou.
A morte de Pelé completa um ano nesta sexta-feira. Perfis do Santos, da Fifa e de diversos clubes pelo mundo prestaram suas homenagens ao Rei.


















