Kaká, quem diria, virou veterano. Agora premiado com a Seleção - SóEsporte
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Kaká, quem diria, virou veterano. Agora premiado com a Seleção

(FIFA.com) Sexta-feira 3 de outubro de 2014

Kaká, quem diria, virou veterano. Agora premiado com a Seleção

© Getty Images

Kaká começou a brilhar tão cedo que, com sua cara de garoto e tudo, é como se aos 32 anos fosse um tremendo veterano. E um veterano que sabe falar muito bem sobre o que vive. Tanto que a meia hora de conversa do FIFA.com com o jogador antes de um treino em seu novo-velho clube, o São Paulo, não parecem o bastante nem para começar a matar a curiosidade diante de tantos assuntos.

Entre eles, estava o modo como enxergava a possibilidade de retornar à Seleção Brasileira, mesmo com a Copa do Mundo da FIFA Rússia 2018 bem distante. “A Seleção, para mim, vai ser um prêmio”, afirmou. E o prêmio saiu nesta sexta-feira, com o meio-campista sendo convocado para substituir o cruzeirense Ricardo Goulart, lesionado, em amistosos contra Argentina e Japão, em outubro. Veja só como foi o papo:

Você está jogando regularmente, num ritmo intenso, realizando uma função que exige muito. Fisicamente, como você se sente? É o mais confortável que se sente num bom tempo?
Eu estou muito bem em todos os aspectos. Esta volta tem sido muito legal, por aspectos profissionais e pessoais. E a minha condição física acho que já vem melhorando há muito tempo: agora, como estou por perto, os brasileiros percebem mais isso, mas na temporada passada, no Milan, eu joguei; não tive nenhuma lesão séria. Eu venho mantendo uma regularidade. Pelo menos nessa questão física, está ok.

Isso é algo que rende melhor quanto mais você joga?
É um pacote: claro que, quanto mais você joga, mais você mantém seu condicionamento, só que com o jogo você não adquire condição física. Essa foi uma pergunta que eu fiz para vários fisiologistas e preparadores: se o jogo serve como um treino no aspecto físico. A maioria me falou que não, que a intensidade e o desgaste são muito grandes, então não acaba sendo um treino produtivo. Então, eu digo que é um pacote porque, de uns dois ou três anos para cá, eu venho fazendo um trabalho de prevenção: eu chego aqui uma hora antes do treino – e isso era no Milan e no Real Madrid também – e peço para os fisiologistas: “Eu quero que vocês me passem um treino de prevenção de lesão.” E toda semana a gente vai ajustando, de acordo com o estado físico e a sequência de jogos.

O Muricy Ramalho, técnico do São Paulo, tem falado muito sobre a influência positiva que você tem no grupo, pelo fato de, mesmo sendo um cara consagrado, ser dos que mais correm e se dedicam. Na sua carreira, houve alguém que exerceu um papel assim e foi importante para você?
Eu trabalhei com grandes jogadores e, principalmente nos grandes clubes, têm vários líderes específicos – para além do capitão. Especificamente nesse aspecto, eu gosto de citar o (Gennaro) Gattuso, porque ele era um cara que, independente do jogo – contra quem; se era importante ou não; se era amistoso – ele corria e se dedicava da mesma forma. Então, quando eu via o Gattuso correndo, era natural pensar: “Poxa, olha quanto o cara está correndo. Eu não posso não ajudar.” Então, é uma liderança ativa que reflete bastante num grupo.

Você surgiu tão de repente no futebol que, por muito tempo, parece que foi tratado como um garoto. É curioso, para você, assumir esse papel de veterano?
É uma fase nova na minha carreira e na minha vida profissional. Acho que eu comecei a reparar nesse salto quando fui convocado para a Seleção Brasileira pela primeira vez depois da Copa de 2010. Porque aí eu chego na Seleção e vejo a galera toda nova, aquela troca de geração. Os caras falando: “Eu era da categoria de base do São Paulo. Você era meu ídolo.” Ali, acho que eu comecei realmente a perceber: “O momento é outro.” Mas é um momento legal, de ver aquele cara que eu fui um dia: de se sentar e olhar os caras, admirar. E hoje eu vejo isso mesmo. Às vezes, sentado na mesa, eu pego alguém me olhando, reparando em mim. É uma fase muito boa.

Os dois casos mais evidentes de caras que cresceram ao teu lado são o Ganso e o Pato. No caso do Ganso, que tipo de jogador você encontrou e que mudanças ele tem feito no jogo dele para render melhor?

O Ganso é um jogador extremamente talentoso: muito inteligente e acima da média na questão técnica. O que ele tem melhorado é no de não depender só dessa parte. Porque o jogador, muitas vezes – não por maldade, de jeito algum –, mas por ter uma condição técnica muito elevada, acaba se acomodando naquilo em que é muito bom. Mas, hoje, o Ganso é fundamental para o time na parte defensiva: ele não rouba bolas – assim como eu não roubo bolas –, mas a gente ocupa um espaço e faz com que os volantes roubem a bola mais facilmente. Essa importância é a que ele está entendendo agora e que é fundamental. Porque na parte técnica, de inteligência e visão de jogo, ele é um jogador fora do comum.

Os críticos falam da suposta falta de intensidade do Ganso. Para você, que brilhou durante anos na Europa, onde estão os melhores jogadores do mundo, esse é um aspecto que falta a ele?
Eu não vejo que ele não seja intensivo. O que ele tem é o nível de intensidade dele – que é diferente do nível de intensidade do Denílson ou do Rafael Tolói. Isso não significa que não seja participativo. Da forma como ele joga e da forma como ele tem crescido e amadurecido, ele pode jogar num grande clube europeu tranquilamente.

Quanto ao Alexandre Pato: você viu a chegada dele ao Milan. O potencial dele era, realmente, algo de se chamar a atenção?
Bastante. O Pato foi um jogador que chamou a atenção de todo mundo quando chegou. Ele tinha 17 anos e não podia jogar ainda, precisou esperar uma autorização. Então, durante os treinamentos ele impressionava por isso: pela condição física que ele tinha – muita velocidade e muita força – e por conseguir aplicar isso com uma técnica muito apurada.

Quando você foi ao Real Madrid e acompanhou, de longe, a dificuldade do Pato de se firmar definitivamente no Milan, isso te intrigava?
Naquele momento, o maior problema dele era a questão física. Porque, quando você não tem uma continuidade de jogos, você não ganha confiança. Agora mesmo o Pato está extremamente confiante, e isso é fundamental. Agora, quando você está machucado, entra em campo e a primeira coisa que passa pela cabeça é “será que eu vou me machucar de novo ou não?”, isso limita muito. Então, naquele período o maior problema dele foi a série de lesões.

Relembrando o teu surgimento: como foi o processo de transição da base para o profissional, que foi tão atípico – por conta do acidente – e tão meteórico. Quais são os fatores para você ter chegado tão pronto à equipe adulta?
“Estar pronto” é meio relativo: eu aproveitei a oportunidade que eu tive e, para isso, a categoria de base foi fundamental. Eu estava em formação: tinha 18 anos, chegando ao profissional, e as coisas foram acontecendo. Mas a formação que eu tive na base do São Paulo foi excelente. Por isso é que eu gosto tanto da base daqui: eu converso bastante com eles, até para entender como está sendo o processo, que mudou desde a minha época… A formação do atleta é fundamental, porque você não forma só um jogador, mas um cidadão. A grande maioria desses moleques passa a maior parte do tempo aqui: jogando, treinando, viajando, abrindo mão de uma série de coisas que pessoas da idade deles têm. Tudo isso só para apostar na possibilidade de ser um jogador profissional.

Depois de 8 troféus de melhor jogador do ano entre 1994 e 2008, desde você nenhum brasileiro ganha esse prêmio. Entre isso e resultados recentes nas Copas do Mundo da FIFA, fala-se muito numa crise técnica e de formação no futebol brasileiro. Ela existe mesmo?
Eu não acho que o prêmio de melhor do mundo deva ser um parâmetro, porque ele é muito amplo. Porque se o Cristiano Ronaldo, o Messi ou eu mesmo não tivéssemos tido uma regularidade de conquistas coletivas, esse prêmio seria muito relativo. Então, depende do momento que você passa individualmente, mas dentro de um contexto coletivo. A formação pode ser sempre melhorada, mas hoje é tudo muito globalizado e, com isso, você tem jogadores sendo formados em vários outros países – e, nisso, nossa formação de base pode melhorar: o que dá certo dentro do que é feito na Alemanha? O que eles têm feito na Argentina, na Itália… a profissionalização de quem trabalha na base, que seja um treinador bem formado, que saiba lidar com crianças e adolescentes…

Você assistiu à Copa de 2014? Houve algo que chamou especialmente a sua atenção?
Ah, a Alemanha. A Argentina também, muito mais pela organização tática deles durante todo o jogo: eu fui assistir a dois jogos deles – contra a Holanda e a final – e eles estavam o tempo inteiro organizados, independentemente do momento do jogo, mesmo com prorrogação. E isso é muito difícil. Primeiro, pela questão física, porque chega uma hora em que isso vai mudando, e pelas variações da própria partida. E a Alemanha, por todo o contexto da passagem deles. É aquele time de 2010, evoluído pelo tempo que jogam juntos e pela maturidade. Isso, no campo, faz muita diferença.

E quanto ao futebol brasileiro? Após os 7 a 1, fala-se muito sobre o que pode melhorar por aqui.
Eu acho que o que pode melhorar na Seleção e no futebol brasileiro são duas coisas distintas. Na Seleção, a maioria dos jogadores atua fora, o treinador vive de uma outra forma… Mas o Campeonato Brasileiro tem muito a melhorar. A gente tem o potencial técnico para que seja um dos melhores do mundo. Ele é extremamente competitivo, e o que falta é uma parte de organização, planejamento e implantação desse planejamento – e não só a questão de resultado, mas compensar a longo prazo. Pode ser que em um ou dois anos os resultados não sejam os que a gente espera, mas a longo prazo isso serve. E é aí que a Alemanha serve de lição, porque eles vêm planejando desde 2006, quando receberam a Copa, e vieram colher em 2014. Não foi do nada: eles planejaram, implantaram e colheram os frutos.

Você viveu um período parecido de críticas à Seleção que caiu na Copa de 2006 e, sob o comando do Dunga, você foi um dos poucos que retornou para disputar 2010. Ele é o treinador indicado para fazer esse tipo de processo de renovação outra vez?
O Dunga é um treinador que consegue transmitir ao jogador um comprometimento com aquilo que se está fazendo. Eu trabalhei com ele durante quatro anos, e no começo não foi fácil, justamente porque eu vinha de 2006: comecei no banco e fui conquistando meu espaço. E ele sempre conseguiu passar isso. Até para a torcida ficou um pouco desse resgate do comprometimento. E, mais uma vez, neste momento, acho que o Dunga pode ser o cara que resgate esse comprometimento. Resgate não, porque ele não faltou em 2014. Foi uma combinação de uma série de fatores. Mas ele é, sim, alguém que pode ajudar muito a Seleção.

O principal aporte do Dunga, então, tem a ver com esse lado da personalidade.
O que acontece é que, na verdade, o jogador vem para a Seleção já treinado. Ele é treinado no clube. Então, ali, se trata de como o treinador vai encaixar as peças que ele tem dentro de sua filosofia. E o Dunga é um cara que consegue fazer isso. Na minha opinião, é um cara que tem tudo para ajudar muito.

Aliás, você nunca disse que a Seleção já não estava mais em seus planos. Como a Seleção entra na sua vida hoje?
A Seleção Brasileira, para mim, vai ser um prêmio, dependendo daquilo que eu faça no clube. Então, o meu pensamento é aqui – em manter uma continuidade de jogos; uma regularidade de bons jogos. E, se eles acharem, na comissão técnica, que eu me encaixo nos critérios de convocação, essa convocação seria bem-vinda. Se eles acharem que eu não me encaixo mais, meu objetivo é esse: manter uma regularidade, fazer bons e manter um nível alto aqui no São Paulo.

Quando você ainda estava no Real Madrid, de alguma forma passava pela sua cabeça voltar a jogar pelos dois clubes pelos quais você tem mais carinho – o Milan e o São Paulo -, como aconteceu?

As coisas foram acontecendo aos poucos. A princípio, a minha ideia era ficar no Real Madrid pelos meus seis anos de contrato. Mas as coisas foram acontecendo, até que chegou esse momento em que eu decidi voltar para o Milan para poder ter uma continuidade de jogos. Pensei: “Eu preciso dessa continuidade e voltar a jogar bem para poder ter uma chance de disputar a Copa de 2014.” Foi a minha escolha: voltei para lá, joguei e a convocação não veio, mas fiquei superfeliz com a escolha que eu fiz, porque consegui voltar a jogar e bem.

E como foi, num plano pessoal, esse retorno?
A volta para o Milan foi muito legal: reencontrar quem trabalhou comigo na primeira passagem; a torcida, que me recebeu bem demais. Mesmo não tendo sido um ótimo campeonato, para mim, individualmente, foi muito legal. Ter voltado ao Brasil com um passagem dessas, pelo clube onde tive meus maiores êxitos profissionais, foi muito legal.

O próximo passo, então, é a novidade: o Orlando City. Quanto pesa na sua decisão esse lado humano, de partir para viver num novo país?
Isso tudo entra na decisão de ir jogar nos Estados Unidos. Se perguntarem: “você está indo só pelo campeonato, que está em expansão?” Não, claro que a parte profissional tem um peso nessa balança. Mas é tudo isso: morar num país onde nunca morei, conhecer uma cultura nova mais uma vez. Isso tudo culmina na decisão de querer jogar nessa liga que está em expansão. Eu estou curtindo muito este momento no São Paulo, porque a volta está sendo muito legal, e depois vou pensar nessa nova fase da vida e da carreira.

Você já vislumbra algo para o dia em que deixar de ser jogador? Pretende seguir, de alguma forma, no futebol?
Não tenho nada traçado. Hoje eu tenho contrato com o São Paulo a princípio até dezembro e, depois, mais três anos nos Estados Unidos. O máximo de planejamento a longo prazo que eu tenho é isso. A partir daí, varia muito de acordo com a minha condição física, com minha motivação; quanto eu quero jogar ou fazer outra coisa.

E tem ideia sobre o que seria essa coisa?
Se me dissessem: “Kaká, você vai parar hoje de jogar”. Hoje, eu a princípio não faria nada diretamente dentro do campo, como treinador ou auxiliar técnico. Gostaria de fazer alguma coisa entre o campo e a parte administrativa: um manager, alguma coisa nesse sentido. Daqui a três ou quatro anos, não sei quais podem ser minhas escolhas.

Você conviveu com alguém que fazia bem esse papel e serviu para despertar essa vontade?
Eu vi o Leo (Leonardo Araújo, diretor técnico do Milan entre 2008 e 2009) fazendo isso muito bem, e ele é alguém com quem eu converso bastante e tenho um bom relacionamento. E um cara que me ajudou muito a pensar nisso foi o (Zinédine) Zidane, porque, quando ele começou a atuar como membro da comissão técnica do Carlo Ancelotti, eu perguntei: “Mas por que agora você está voltando?” E ele: “Porque agora é que eu senti falta do campo. Quando eu parei, sentia falta de outras coisas: de ficar com minha família e meus filhos. Era embaixador do clube e fazia coisas esporádicas. E agora comecei a sentir essa falta. Comecei a estudar, apareceu a oportunidade com o Ancelotti e resolvi voltar.” Então, é assim: não sei como vai estar minha cabeça daqui a quatro anos, se eu vou sentir falta do campo ou se eu nunca mais vou querer ver o campo. É questão de deixar as coisas irem acontecendo.

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