Com recordes no streaming, Copa do Mundo evidencia nova era do entretenimento digital
Apesar da TV aberta manter-se dominante entre os torcedores, transmissões no Youtube mais que triplicam audiência e reforçam nova tendência
Não é novidade que a Copa do Mundo é capaz de ditar ou reforçar tendências em todo o mundo. No mundial de 2026, o mesmo tem ocorrido quando o assunto gira em torno das novas tendências de consumo para acompanhar eventos esportivos. Na transmissão de Brasil e Haiti na última sexta-feira (19), por exemplo, as plataformas de streaming chegaram aos 13,7 pontos de média de audiência e 20,9% de share (indicador que mede a fatia de televisores ligados a um canal no momento da transmissão), consolidando-se como a segunda forma de acesso mais popular entre o público, segundo dados obtidos pelo Notícias da TV.
Na liderança, a TV Globo manteve-se intacta, com 33,3 pontos de média e 51% de share. Apesar da ampla dominância da emissora carioca ainda se fazer valer, os números alcançados pelos canais de streaming na transmissão da partida tornam-se relevantes na medida em que chegou a superar até mesmo o SBT, que registrou 11,7 pontos de média e 17,8% de Share.
Quem puxou a alta dos streamings foi a CazéTV, que chegou a registrar pico de 16,1 milhões de acessos simultâneos durante a partida, marca que tornou-se o novo recorde histórico do Youtube. Os números representam alta de 28% na audiência simultânea em comparação ao primeiro jogo do Brasil transmitido pela plataforma. O recorde anterior já pertencia ao próprio canal.
Para Bruna Simões, especialista em inovação digital e CEO da Thunder Games, empresa de desenvolvimento de jogos e soluções gamificadas, o atual patamar atingido pelo streaming, apesar de ainda não chegar a ameaçar a audiência da TV, é histórico.
“Os números mostram que mesmo que a TV aberta siga em posição de liderança, já há um grande espaço que foi ocupado pelo streaming, o que era difícil de imaginar há alguns anos. Hoje, fica claro que a tendência pelo consumo digital, em plataformas online, torna-se cada vez maior, independentemente de dificuldades como o delay das transmissões. Existe toda uma nova geração vindo que já nasceu nesse ambiente, e as oportunidades são enormes”, avalia.
Já Ivan Martinho, professor de marketing esportivo pela ESPM, destaca que “a verdadeira transformação aconteceu no comportamento do consumidor”. “O fenômeno da CazéTV mostra que a disputa não é mais entre televisão e internet. A disputa é pela atenção. O público, especialmente o mais jovem, passou a valorizar autenticidade, interação e linguagem mais próxima da sua realidade. A tecnologia foi apenas o meio”, pontua.
“O dado de audiência mostra que o torcedor está migrando para onde tem mais controle sobre como acompanha o jogo, e isso por si só já redesenha o mapa de consumo do futebol. Mas o ponto que mais interessa às marcas vem depois do share. Diferentemente da TV, o streaming abre espaço para chat ao vivo, segunda tela, comentários e consumo sob demanda, recursos que transformam quem assiste em quem participa”, acrescenta Thales Rangel Mafia, gerente de marketing da Multimarcas Consórcios.
Outro fator marcante para as transmissões no Youtube é que a CazéTV também já triplicou o alcance na plataforma durante a primeira fase em relação ao Mundial de 2022: Enquanto há quatro anos o canal atingiu 22 milhões de espectadores, na atual edição já ultrapassou os 64 milhões.
Ainda para efeito de comparação, o crescimento da audiência da CazéTV de 2022 para 2026 também pode ser exemplificado por meio do recorde de acessos simultâneos na edição de quatro anos atrás: seis milhões de espectadores na partida entre Brasil e Croácia. O recorde atual supera em 166% a marca de 2022.
“Os recordes de audiência registrados no streaming ajudam a demonstrar que o valor econômico do futebol não está apenas dentro de campo. O alcance das transmissões tem impacto direto na atratividade do produto para patrocinadores, anunciantes e parceiros comerciais. Quando uma competição consegue mobilizar milhões de pessoas simultaneamente em diferentes plataformas, ela fortalece sua capacidade de gerar receitas e ampliar o valor de mercado de todo o ecossistema do futebol”, avalia Moisés Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças do futebol.
“O público mais jovem deixou de ser apenas espectador para se tornar participante da conversa, buscando formatos mais leves, linguagem nativa das plataformas digitais e uma experiência que mistura entretenimento, informação e interação em tempo real”, acrescenta Bruno Brum, CMO da Agência End to End, empresa que faz a gestão de dezenas de clubes e entidades esportivas.
Robson Carlo, sócio-fundador da FutebolCard, plataforma líder em gestão de ingressos e programas de sócio-torcedor, também adota raciocínio parecido e destaca as formas de cativar o público e gerar conexão real com os torcedores.
“O jogo já não acontece apenas dentro do campo. Hoje, o torcedor quer participar da experiência em tempo real, comentar, comprar produtos, interagir e fazer parte da comunidade. O streaming entendeu que entretenimento deixou de ser audiência para se tornar relacionamento. Quem conseguir transformar espectadores em comunidade terá muito mais valor do que quem apenas transmitir conteúdo. É exatamente por isso que plataformas como a CazéTV criam uma linguagem própria, aproximam o público e fazem o torcedor sentir que pertence àquela experiência”.
Fenômeno multitelas também em alta
O cenário de alta dos streamings também acompanha o crescimento do comportamento de segunda tela, em que torcedores assistem aos jogos pela TV ou streaming enquanto utilizam, por exemplo, aplicativos para acompanhar estatísticas, notificações e lances em tempo real. A tendência ganha ainda mais força durante a Copa do Mundo de 2026, que possui número recorde de seleções e partidas. Segundo levantamento da empresa de mídia programática MiQ, por exemplo, nesta edição do mundial 76% dos torcedores devem acompanhar as partidas com uma segunda tela móvel em mãos.
“Nos dias de hoje, consolida-se a tendência entre os torcedores de acompanharem os eventos esportivos em múltiplas telas, ao mesmo tempo. O comportamento se divide entre assistir à transmissão, comentar nas redes sociais e buscar informações em tempo real paralelamente”, analisa Alexandre Vasconcellos, Diretor Regional da Flashscore no Brasil, empresa que possui nível de confiabilidade semelhante ao de concorrentes especializados e emissoras de televisão, segundo pesquisa realizada pela TGM Research com 3.300 brasileiros que acompanham resultados esportivos online. Ainda segundo o estudo, 53% deles apontam a Flashscore como a plataforma mais rápida para atualizações em tempo real.
“Mais do que uma disputa entre TV e streaming, o que estamos vendo é uma ampliação das formas de consumo do esporte. O crescimento das plataformas digitais mostra que o torcedor quer flexibilidade e identificação com o conteúdo que consome. Do ponto de vista do marketing esportivo, isso representa uma oportunidade importante para desenvolver ativações mais criativas, fortalecer comunidades e criar relações mais duradouras entre marcas e fãs”, acrescenta Anderson Nunes, head de negócios da casa de apostas e especialista em marketing esportivo.
Altas das apostas esportivas e precauções
Ainda em meio ao fenômeno multitelas e a divisão da atenção dos espectadores enquanto acompanham os jogos, outra tendência é reforçada em meio à Copa do Mundo: o hábito de apostar enquanto assiste às partidas. Entre os brasileiros, por exemplo, 56% consideram realizar apostas durante o torneio, segundo pesquisa realizada pela Creditas em parceria com a Opinion Box.
Nesse cenário, especialistas chamam atenção para a importância da manutenção de hábitos saudáveis ao acompanhar os torneios. Cristiano Costa, psicólogo e diretor de conhecimento da EBAC (Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo), destaca que o mundial aflora sentimentos como euforia e frustração, esperança e tristeza. “O mais importante é que as pessoas aproveitem a experiência com equilíbrio, reconhecendo o caráter imprevisível das disputas e preservando sua saúde mental por meio de atitudes conscientes ao longo das competições”, avalia.
Na mesma linha, Daniel Fortune, especialista em conteúdo digital focado na conscientização sobre as bets, também aponta a importância dos cuidados ao apostar e reforça que o tema não deve ser destinado a crianças. “A Copa do Mundo é um período de alegria e pode despertar um desejo maior em apostar, mas é sempre necessário ter em mente que as apostas não são uma forma de enriquecer e que não são destinadas ao público infanto-juvenil, mesmo na companhia dos pais, tanto que essa faixa-etária já é proibida de jogar nas bets regulamentadas”, pontua.
Bernardo Cavalcanti Freire, consultor jurídico da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e sócio do Betlaw, também destaca os deveres das plataformas para que as campanhas de marketing e publicidade durante as transmissões sigam as regras estipuladas para o setor. “É fundamental que a publicidade das bets esteja em conformidade com as diretrizes de leis como a 1.4790/23, que regulamentou as bets no Brasil, e o anexo X do Conar, com regras específicas para as campanhas de marketing. É importante que de forma alguma as propagandas transmitam a ideia de enriquecimento e ascensão social por meio das apostas”, destaca.
Com a tendência de alta das apostas, é esperado que a receita global gerada nas plataformas durante o mundial pode superar US$ 50 bilhões (aproximadamente R$ 259,5 bilhões), segundo Darren Small, vice-presidente da Sportradar, uma das principais empresas de tecnologia esportiva do mundo. “Em meio aos valores movimentados, é fundamental que as plataformas reforcem os sistemas de antifraude e de jogo responsável, para garantir a segurança de todos. A grande quantidade de acessos simultâneos também demanda estabilidade tecnológica”, alerta João Fraga, CEO da Paag, empresa de tecnologia que oferece plataforma de gestão de risco para o mercado de bets, analisa os desafios tecnológicos.


















