Esse brasileiro da Inter de Milão tem uma tatuagem em defesa da educação - SóEsporte
Futebol

Esse brasileiro da Inter de Milão tem uma tatuagem em defesa da educação

Por Maria Tereza Santos

peleja.com.br

O perfil de Luis Henrique nas redes é bastante protocolar: inúmeras fotos dele em treinos e jogos, acompanhadas de legendas comemorativas ou mensagens motivacionais, e uma ou outra imagem mais pessoal com a família.

Mas quem der uma fuçada a mais, vai encontrar a foto de uma tatuagem na perna do jogador com o que parece ser o brasão de um clube, junto com a mensagem “livro na mão e bola no pé”. E a educação tem, de fato, um papel importante na vida do atleta.

PELEJA bateu um papo exclusivo com o mais novo craque brasileiro da Inter sobre o projeto LH11, fundado pelo seu pai, e que tem o objetivo de formar jogadores que entendam a importância do estudo e do conhecimento na sua formação como atletas.

De Solânea para o mundo

Apesar de simpático, Luis chegou na nossa conversa – feita por videochamada – bastante tímido. Para quebrar o gelo, comecei perguntando sobre a infância dele. Mesmo tendo nascido em João Pessoa, o camisa 11 passou a maior parte dessa fase da vida em Solânea, cidade que fica a pouco mais de 100 quilômetros de distância da capital, na região do chamado Brejo Paraibano.

Sempre fui muito do futebol. Até por conta da escolinha do meu pai, eu já cresci ali dentro, então, sempre fui muito futebol, e mesmo em dias que não tinha treino, era futebol com os amigos na rua mesmo. E na época de São João, que é muito forte lá no interior da Paraíba, acho que era se juntar com os primos e fazer fogueira, soltar fogos, essas coisas assim”.

Luis Henrique é filho de Ronaldo Tomaz, ex-jogador que passou por vários clubes do futebol paraibano. Ele encerrou a carreira em 1997 por causa de uma lesão e, desde então, tem se dedicado a um projeto social focado em futebol de base em Solânea.

Ele começou o projeto em 1998, utilizando um campo municipal cedido pela prefeitura, mas, por causa de impasses políticos, decidiu construir seu próprio centro de treinamento. Para isso, Ronaldo vendeu sua própria casa e buscou empréstimos bancários para comprar o terreno e iniciar as obras.

A filosofia do projeto sempre foi “livro na mão e bola no pé” – o que era, no início, o nome em si do local. O objetivo central não é ser uma simples escolinha, mas incentivar os alunos a não abandonarem os estudos e ajudar crianças da região, funcionando como uma ação social para famílias que não têm condições financeiras.

Além dos treinos de futebol, que contam com jogadores bolsistas, o projeto promove ações solidárias em Solânea, como a doação de cestas básicas para a população no natal.

Foi desse projeto que surgiu o Luis Henrique que conhecemos hoje. Antes da sua ida para o Três Passos, no Rio Grande do Sul – considerado o pontapé inicial da sua trajetória até o Botafogo e, depois, o futebol europeu – ele passou pela escolinha criada pelo próprio pai.

“Livro na mão e bola no pé”

Na ânsia de tentar mudar a realidade financeira da família, não são poucos os meninos que abandonam os estudos – de forma literal, virando estatística de evasão escolar, ou simplesmente deixando em último plano na lista de prioridades – na busca de se sobressair no universo do futebol.

Esse não é um movimento isolado. No Brasil, a evasão escolar ainda é um dos principais problemas da educação, atingindo principalmente jovens de baixa renda. Dados recentes do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) mostram que o abandono se concentra justamente na faixa etária em que muitos garotos passam a enxergar o futebol como uma possibilidade concreta de ascensão social.

Mais do que uma decisão pontual, especialistas apontam que deixar a escola costuma ser o resultado de um processo gradual, marcado por dificuldades financeiras, repetência e pela falta de perspectiva de futuro dentro da sala de aula.

Luis explicou que sua criação visou justamente fugir dessa realidade, até porque foi algo que seu pai vivenciou.

“Meu pai sempre prezou muito para que a gente estudasse. Até porque ele, infelizmente, na infância, teve esse problema de ter que trabalhar em vez de estudar. É uma coisa que ainda pesa muito hoje em dia pra muita gente”.

“Esse incentivo aos estudos na escolinha é para dar uma melhora para a família não só no futebol, mas em qualquer área que os meninos escolham.”

É nesse contexto que projetos como o criado pelo pai de Luis ganham ainda mais relevância. Em regiões do interior do país, onde oportunidades podem ser mais escassas, iniciativas que conciliam esporte e educação funcionam como uma estratégia para evitar que jovens abandonem os estudos.

A lógica é simples: se o futebol é, muitas vezes, o que mantém o interesse desses garotos, ele também pode ser a porta de entrada para mantê-los na escola.

O projeto já disputa campeonatos oficiais em João Pessoa e revelou cerca de 10 atletas que estão em grandes clubes do Brasil
O projeto já disputa campeonatos oficiais em João Pessoa e revelou cerca de 10 atletas que estão em grandes clubes do Brasil (Foto: Divulgação)

A mensagem que virou tatuagem

Como comentamos no início do texto, a escolinha teve tanta importância que virou tema para tatuagem. 

Meu irmão também tem uma. Acho que tem que  na pele também, foi onde a gente foi criado, né? As pessoas olham e sempre perguntam o que é e eu sempre tenho muito orgulho de falar que é de onde eu saí, que é a escolinha do meu”.

Com o avanço de Luis Henrique na carreira, o nome da escolinha acabou mudando para LH11 para usar o jogador da Inter como forma de marketing – além de todos os investimentos que ele tem feito no local. E assim como o projeto tem ganhado mais visibilidade, Luis espera que seu nome e sua posição possam ajudar a ecoar causas que nem sempre são vistas ou ouvidas.

— Quanto mais eu crescer [na carreira], acho que posso lutar por isso. É uma coisa também que eu aprendi muito em casa, sobre respeitar todas as pessoas, então é uma coisa que eu gostaria sim de defender e acho que faz parte da minha educação também.

Bilhetes para jogos

No fim das contas, a frase tatuada na perna de Luis sintetiza um dilema vivido por milhares de jovens brasileiros. Entre o sonho do futebol e a necessidade de garantir um futuro mais estável, a permanência na escola ainda depende, muitas vezes, de iniciativas como a que marcou a trajetória do jogador.

Clique para comentar

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.