
A nova filosofia de continuidade no Treze para 2027
Sob o modelo de Sociedade de Propósito Específico (SPE), o Galo da Borborema quebra o ciclo histórico de desmanches após eliminações e aposta na performance para basear seu projeto para 2027.
Rafael Costa25 de agosto de 2026

Durante décadas, o futebol nordestino foi refém de uma prática cruel: a eliminação em um campeonato significava a demissão do treinador e a dispensa de todo o elenco. No Treze, essa cultura da “terra arrasada” parece ter chegado ao fim. Respaldado pelo gerente de futebol Joba, o clube anunciou a manutenção do técnico Adriano Souza, no cargo desde fevereiro de 2026, e a renovação de contrato de peças-chave para a próxima temporada.
Até o momento, oito permanências foram confirmadas: o goleiro Erivelton, os zagueiros John Lessa e Matheus Barbosa, o volante Marquinhos, o meia Giovane Mário e o atacante Dioran, além de mais dois atletas recém-anunciados. A expectativa da diretoria é de que até 13 jogadores da atual temporada sigam no Alvinegro.
Mas até que ponto a manutenção, ou a falta dela, de um elenco de uma temporada para outra reflete nos resultados dentro de campo? O cruzamento de dados dos elencos e das campanhas do Treze entre 2019 e 2026 revela um padrão claro: a instabilidade destrói calendários, enquanto a manutenção de uma espinha dorsal gera títulos e acessos nacionais.

A matemática do caos: desmanches e fracassos
Sempre que o Treze apostou em desmanches radicais de uma temporada para a outra, os resultados em campo foram punitivos, deixando o clube sem calendário e fora das grandes decisões.
Após o rebaixamento da Série C para a Série D em 2021, com uma modesta 5ª colocação no Paraibano, o Treze dissolveu a base que tinha jogadores como Marlon, Birungueta e Júlio Ferrari. O elenco de 2022 foi inteiramente novo, liderado por nomes como Luciano Alves, Carlinhos e Marcus Vinicius. O resultado da falta de continuidade? O Treze amargou o meio de tabela no Paraibano de 2022 com cerca de 35% de aproveitamento e ficou completamente fora do cenário nacional, sem disputar a Série D ou a Copa do Nordeste.
Em 2024, o Treze teve uma boa campanha na primeira fase da Série D, avançando ao mata-mata. Contudo, para a temporada 2025, o clube novamente optou por não segurar a grande maioria de suas peças, mantendo apenas poucos nomes como o goleiro Rayan, o lateral Van e o meia Juninho. A instabilidade do elenco refletiu no banco de reservas: o clube teve nada menos que seis treinadores em 2025, Renatinho Potiguar, Ítalo Pereira, Marcelo Martelotte, Felipe Surian, Marcelo Vilar e William de Mattia. O reflexo no campo foi imediato: o time não chegou às finais do Paraibano e caiu precocemente na fase de grupos da Série D com apenas 33% de aproveitamento.

Em contrapartida, quando o Treze conseguiu manter o comando técnico e uma base de atletas, as taças e as classificações para as competições nacionais e regionais apareceram.
O título estadual de 2020 começou a ser pavimentado com algumas manutenções pontuais da temporada 2019. Atletas como o zagueiro Breno Calixto e o meia Robson Lopes vivenciaram a campanha de 2019 e se tornaram pilares fundamentais no elenco campeão de 2020. Robson Lopes, por exemplo, saltou de 8 jogos em 2019 para 26 partidas na vitoriosa temporada seguinte.
O título do Campeonato Paraibano de 2023 com cerca de 62% de aproveitamento ocorreu sob a forte estabilidade de William de Mattia, que teve incríveis 474 dias no cargo. O Galo garantiu o calendário completo para 2024 com Copa do Brasil, Nordestão e Série D e, de forma inteligente, manteve a sua espinha dorsal. Jogadores cruciais do título de 2023 como o goleiro Rayan, os meias Yamada e Edmundo, e os atacantes Roberto e Xande, seguiram no clube para 2024, ano em que, sob o comando de Dema, garantiu a vaga na Série D do ano seguinte.

Dema acabou não ficando no cargo após a eliminação na semifinal para o Sousa em pleno estádio Amigão lotado mas esse período marcou a transição entre o comando de William De Mattia no Campeonato Paraibano e a chegada de Waguinho Dias para a Série D. Do elenco que disputou o Paraibano; 12 jogadores se mantiveram no elenco de uma competição para a outra.
Essa manutenção de jogadores permitiu que o Treze fizesse uma campanha sólida e competitiva na Série D de 2024, com cerca de 55% de aproveitamento e chegando ao mata-mata do acesso sob o comando do Waguinho Dias.
A mudança definitiva de paradigma
A grande ruptura cultural ocorre exatamente agora. Em 2026, o Treze terminou em 6º lugar na primeira fase do Paraibano e foi eliminado nas oitavas de final da Série D pelo São José-RS, em uma dolorosa disputa de pênaltis. Pela cartilha do “velho futebol”, Adriano Souza e os jogadores seriam sumariamente demitidos devido à eliminação.
No entanto, a gestão da SPE aplicou a visão técnica detalhada pelo gerente Joba: avaliar a performance, e não o simples resultado de uma eliminação. Na Série D de 2026, o Treze teve um excelente aproveitamento de 66% na competição nacional.
Diferente do que fez entre 2024 e 2025, o clube decidiu reter seus melhores ativos de 2026. Manter jogadores fortemente testados na atual temporada, como o meia Marquinhos, o atleta de linha mais utilizado no ano, com 24 partidas e 4 gols; e peças frequentes como o goleiro Erivelton (14 jogos), John Lessa (14 jogos) e Matheus Barbosa (11 jogos), significa que o Galo não precisará começar do zero.
Ao garantir a permanência de até 13 jogadores e do treinador Adriano Souza para 2027, o Treze troca o recomeço incerto pela evolução de um modelo já testado. É a prova histórica e estatística de que o clube substituiu a emoção volátil da arquibancada pela frieza e inteligência da gestão esportiva.
















